domingo, 23 de janeiro de 2011

Um prodígio de amor


Era uma vez dois amigos, um salgueiro e um pequeno charco. Viviam na propriedade de um senhor muito rico, num terreno plano e coberto de erva e eram os dois únicos habitantes daquele lugar.

O charquinho situava-se à sombra do grande salgueiro, protegido pela sua copa e pelos seus ramos compridos e pontiagudos. Dele faziam parte inúmeras criaturas que no Verão quase pareciam mágicas à luz do sol: libelinhas e outros insectos brilhantes. Também lá viviam rãs minúsculas e a sua superfície estava coberta de lindos e pequenos nenúfares. A sua água era fresca e cristalina, mesmo estando parada. O charquinho era adorável. O seu coração era muito grande, pois eram parte dele tantas vidas e ele de todas cuidava, com um amor maternal e desinteressado. 

Havia no seu coração, no entanto, um lugar especial, reservado ao seu querido amigo salgueiro. Gostava tanto do salgueiro que a imagem que reflectia dele era a de uma árvore coberta de flores de mil cores durante todo o ano, de copa arredondada e curvas suaves. O salgueiro bem sabia que a sua verdadeira figura não era aquela, pois já se tinha visto reflectido em gotas de chuva. Sabia que os seus troncos caíam a pique para o chão, dando-lhe um aspecto quase tenebroso mas isso fazia-o gostar ainda mais do seu charquinho, pois sabia que este conseguia ver quem ele era por dentro.

Num Verão particularmente quente o senhor daquelas terras resolveu construir um poço. Esperou por dias frescos que chegaram com as brisas do vento Norte, que no Verão costuma trazer o alívio ao calor, mas de forma muito ordeira. Nesses dias enviou uma equipa de engenheiros ao terreno, que efectuaram os seus estudos científicos e concluíram que o melhor sítio para o poço era exactamente no lugar do charquinho. O senhor tinha grande estima pelo salgueiro, pois os seus netos brincavam nos seus troncos todos os Verões e concordou em fazer ali o poço desde que não se comprometesse a árvore. Mas do charquinho o senhor nada sabia, nem sequer tinha alguma vez reparado nele.

Assim, vieram os construtores do poço, que escavaram, escavaram e foram, pouco a pouco, destruindo o charquinho. O que os engenheiros não tinham previsto com os seus estudos é que as raízes do salgueiro se alimentavam da água do charquinho, embora tivessem garantido ao senhor que a árvore estaria a salvo. Ora, durante a escavação, o pior aconteceu. Ao fim do dia de trabalho, o salgueiro tombou e no chão caiu com um enorme estrondo. O senhor ficou desolado e todos recolheram a casa, para delinear novas estratégias. O salgueiro ali ficou, tombado, com uma pequena parte das suas raízes mergulhada no que restava do charquinho. Naquela noite ouviu dentro de si o seu querido charquinho: Salva-te, alimenta-te do que resta da minha água. Eu vou ficar sempre contigo e nunca te esquecerei. Aquilo que fui dará lugar a um poço que servirá para regar os terrenos do nosso senhor e saciar a sede dos seus animais. Ao menos não morro em vão.
 
De manhã o charquinho estava seco e as suas minúsculas e adoráveis criaturas mortas. Voltaram os homens para continuar a sua obra. O senhor deu ordem que o salgueiro fosse replantado noutro ponto do terreno, e assim foi feito. Também o poço foi terminado e aparentemente a calma voltou àquele lugar. Mas não ao coração do salgueiro. Não conseguia aceitar o facto de ter ficado para sempre sem o seu charquinho, e todas as razões humanas para o que tinha sucedido lhe pareciam mesquinhas. Começou a desejar a morte. Numa noite de trovoada chegou a desejar que um raio o trespassasse e que o fogo o consumisse rapidamente. Mas tal não aconteceu. Começou então a negar alimentar-se e para isso foi, a pouco e pouco, fechando as suas raízes à entrada de água. Estava a definhar.

Ora os anjos da guarda do salgueiro e do charquinho, que estavam desolados com o que estava a acontecer naquele lugar, e que perceberam que o salgueiro também iria morrer se nada fosse feito, voaram ao mais alto dos céus e foram expor o caso a Deus. Este já sabia de tudo, pois nunca dorme, mas o seu coração ainda mais se enterneceu quando viu os seus anjos chorarem, comovidos com o que tinha acontecido a dois seres que tanto se amavam. E uma decisão foi tomada.

Nessa noite a terra do senhor foi sacudida por um tremor de terra, e por baixo do salgueiro abriu-se uma pequena depressão. Seguidamente choveu durante horas e a depressão ficou cheia de água. Tudo isto enquanto o salgueiro dormia um sono deprimido e sem sonhos. De manhã a luz do sol, teimosa, acordou-o, e qual não foi o seu espanto quando viu a sua imagem reflectida numa superfície aquática: flores de mil cores, copa arredondada e curvas suaves. Era o seu charquinho, que lhe sorria por baixo dos seus nenúfares delicados! Quanta felicidade, a melhor companhia da sua vida estava de volta! Felizes, ali ficaram a contemplar-se, gratos por mais uma eternidade lhes ter sido dada e por a magia do céu ter refeito aquilo que os homens haviam destruído. 

E assim se passaram anos e eles ainda lá estão, o salgueiro a proteger o charquinho e o charquinho a alimentar o salgueiro com a sua água. E os anjos os vigiam, um empoleirado num ramo do forte salgueiro e o outro com os pés mergulhados no adorável charquinho.